Acordei nesse dia frio, quente para outros, mas congelando pra mim.
Olhei para os lados, no quarto existiam apenas feches de luz vindo da janela, foi quando percebi que já era dia.
Eu estava abraçada em meu travesseiro, parecia seu corpo, eu abraçava com tanto amor.
Levantei querendo ficar, levantei não querendo acordar.
Andei pra um lado e pro outro do apartamento, sentei no sofá e olhei pros lados. Passei os dedos levemente sobre os meus lábios, estavam secos, sem vida, com saudade. Na boca só tinha o gosto de lágrimas, amargas e doces, embrenhadas em soluços e gritos sem som. Eu estava com sede, sede de algo que não sabia o que era. Sabia, mas nunca mais teria.
Respirei fundo e levantei meio sem força, liguei a TV, só tinha mentiras e histórias da mesma cidade, morte e desgraça. Pensei "já to bem de tristezas, não quero mais, obrigada" e desliguei.
Caminhei até a janela da sala, estava um silêncio, só ouvi o barulho irritante dos ferros se encostando e abrindo, lembrou o barulho silencioso, mas ensurdecedor dos nossos corpos se tocando. Olhei os prédios em volta, nenhum sinal de vida, só concretos e pedras. Olhei para o céu, estava nublado, iria chover, o cheiro tava forte, foi quando uma lagrima caiu. Fechei a janela, porque não, não quero lembrar.
Caminhei lentamente até o banheiro, entrei debaixo do chuveiro, a água escorria sobre o meu corpo se juntando com as lágrimas no meio do caminho. Encostei na parede, deixei a água sobre mim, e chorei, mas chorei como se não existisse mais nada. Eu tava precisando, mas a dor não sumiu.
Sai do banho, fui novamente pra janela, o cheiro ainda estava forte, e parecia que ia continuar o resto do dia.
Voltei para o quarto, eu precisava me vestir, um resfriado era a ultima coisa que eu precisava agora.
O gosto de lágrimas ainda tomava conta de todos os meus sentidos, e estava forte como nunca na minha boca. Eu odeio café, eu odeio vodca, eu não posso substituir esse gosto com nada.
Abracei o travesseiro forte mais uma vez, sentada na cama. Não tinha cheiro, eu não tenho nada seu pra lembrar você, só te tenho dentro de mim.
Levantei, olhei no espelho, foi quando percebi: só me resta fechar os olhos, eu já morri.
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